O PECado da empregada

Valdirene chegou na cidade com várias pessoas. Procurou um quarto aqui, um acolá e achou a casa da Dona Vânia como lar. Solícita e com uma mania de limpeza que quase chegava a um diagnóstico médico, ganhou o coração da patroa em minutos. E do Alfredo em segundos, porque tinha uma bunda que não era desse mundo.

Alfredo parava com o videogame na mesma hora. Era só a Valdirene aparecer de flanela e lustra-móveis para o moleque caçar um livro, uma revista, um tratado sobre as armas químicas no Iraque ou qualquer outra coisa que emulasse uma distração. Valdirene se contorcia para limpar atrás da TV e o moleque se contorcia para ver uma marca de calcinha, uma polpa de bunda ou qualquer coisa que o valha. Na escola, o papo não poderia ser outro.

– Cara, eu dava casa, comida e roupa lavada.
– Mas ela quem teria de fazer isso, né?
– Então eu dava FGTS, férias e décimo terceiro.
– Décimo terceiro sem tirar.
– Hahahahahahahahahahahahahaha, babaca…

Alfredo as vezes tentava, daquele jeito que moleque acha que tenta. Dava uma olhada mais fixa na Valdirene, daquelas de cantada de boteco na Vila Madalena. A doméstica sabia que o patrão estava de bituca, mas nunca que largaria o sambão pelo pirralho. Alfredo só fazia suspirar e falar baixo para si. “Ah, um dia…”.

Os anos passaram e o Alfredo virou deputado. A Valdirene tinha já saído da casa, sendo substituída pela Dona Mercedes, aquela que sem sombra de dúvidas lavou as escadas do Senado Romano depois que empacotaram César. Dona Vânia, afinal de contas, tinha um par de olhos. Destaque em Brasília, Alfredo resolveu propor melhores condições para as domésticas. Nas rádios, TVs, jornais e até nas mesas de boteco, dizia que o lance era profissionalizar, afinal de contas serviço é serviço em qualquer lugar. Mas estava na cara que era pela Valdirene. Levou o projeto para ser votado e quando, por unanimidade, conseguiu passar a PEC das Empregadas, subiu ao plenário para discursar sobre a vitória do trabalhador.

Com o bolo de papéis a frente, lembrou da polpa da bunda da Valdirene. Deu um sorriso e na hora achou por bem bater os papéis na mesa para dar uma disfarçada, como fazia há anos. Falou que era uma lei do povo, um marco na sociedade e outras papagaiadas.

Mais tarde, do outro lado da TV, Valdirene viu o Alfredinho discursando. Lembrou na hora do moleque safado que vivia a comer com os olhos suas polpas e frutas. Pensou que poderia ter sido a primeira do pirralho que hoje mudava a história do trabalho doméstico no Brasil. De maneira sincera, encarou a TV e falou bem perto do ouvido do Alfredo:

– Hoje eu dava pra você. Com casa, comida, roupa lava, FGTS, férias, décimo terceiro…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: