A entrevista

Era o terceiro cigarro em duas horas. Olhava para o relógio a cada minuto e pedia, mentalmente, um café a cada segundo. As palavras do editor ainda ecoavam:

– Vai lá, cara. É a entrevista que poucos fizeram.

Verdade. E deveria ser a mais difícil do jornalismo.

A fonte chegou, com certo atraso. Cinco cigarros já tinha sido queimados, muitos cafés tinham sido tomados. Faltava foco. Era respirar fundo e fazer as perguntas certas, se é que existe pergunta certa nesse caso.

– Opa, tudo bom? Desculpa o atraso, sabe como é, o trânsito…
– Tranquilo. Senta ae. Quer um café?
– Não, obrigado.

Agradeceu a todos os deuses que existem e a todos aqueles inventados. A visão da fonte bebendo café seria demais para sua mente pelos próximos 30 anos.

– Mas me diz, qual é sua pauta? É Mídia Ninja e o escambau?

Começou a suar frio. Olhava para os lados, tentando buscar alguém que o seguisse. Lá fora o mundo corria, como sempre. Ali no café, o planeta parou de rodar por instantes, passando toda sua antiga rotação para cabeça, estômago e demais partes que, quando rodam, enrolam a vida do sujeito.

– Você tá bem?
– Tô, tô, tô sim…

Não estava.

– Só preciso pegar minhas anotações aqui.
– Beleza…

Queria que as anotações tivessem sumido. Queria que o mundo acabasse ali, naquela hora, naquele instante. Achou o maldito caderno com as malditas anotações. “Há quanto tempo você tá nessa? Qual é desse grupo? Você tem relações com governos ou partidos?”. Tudo aquilo que já havia sido questionado voltando a tona de novo. Não conseguiu mais se segurar. Olhou bem para o entrevistado, puxou o ar como puxa quem vai cruzar o Atlântico a nado.

– Seu nome completo?
– Pablo Santiago Capilé Mendes…
– Pablo, me conta mais sobre o Fora do Eixo e…
– E?
– Esquece isso. Não consigo.
– Não consegue o quê?
– Não consigo te entrevistar.
– Por quê?
– Não posso falar, mas não rola…
– Que isso cara, tô aberto ao diálogo, diz aí.
– Posso acender um cigarro?
– Claro, pô!

Tragou como se fosse o último cigarro da Terra. Olhou bem para o entrevistado e visões do futuro vieram à sua cabeça. O Editor falando “MAS QUE MERDA HEIN?”, o Capilé dizendo que a mídia anacrônica é preconceituosa e que seus repórteres são despreparados. Que aquilo tudo fora um absurdo, um desrespeito, uma chacota, um ato impensável de uma mídia moribunda. Pensou no amigos do boteco falando “HAHAHAHAHAHAHA CÊ É MUITO LOUCO CARA” enquanto toma uma dose de Maria-mole porque só conseguia pensar em álcool do ruim e forte. Puxou o ar de novo:

– SÉRIO, CARA, QUAL É DESSA BEIÇA? TIRA ISSO DA MINHA FRENTE, PELO AMOR DE DEUS. NÃO CONSIGO, CARA, DESCULPA. EU TENTO TE PERGUNTAR MAS TUDO QUE VEM NA MINHA CABEÇA É ESSE BEIÇO GIGANTE E COMO DEVE SER A LOGÍSTICA DE SE TOMAR UMA COCA COLA NO VERÃO. CARA, VOCÊ NÃO É CAPAZ DE FAZER UM DOS ATOS MAIS SIMPLES E SUBLIMES DA HUMANIDADE DECENTEMENTE E AINDA QUER CAGAR REGRA DE COMO SE FAZ JORNALISMO, DE COMO SE FAZ CURADORIA CULTURAL, DE COMO SE FAZ O CARALHO A QUATRO. OLHA ESSA BEIÇA, CARA. OLHA. ESSA. PORRA. DESSA. BEIÇA.

Pablo deixou o café indignado. O repórter respirou fundo, deu um gole no café, deixou três vezes a mais que o valor na mesa e sumiu. Não foi mais à redação, não apareceu no bar com os amigos, não atualizava as redes sociais. A família diz que ele está bem. Os médicos dizem que ele está consumido por um distúrbio ainda sem nome, mas que eles gostam muito de chamar de Mal de Capilé ou Beiçolite. Que desenha beiços na parede do hospital e nos cadernos, pautados ou não, que usava em suas reportagens. Que passa horas do dia de beiço para fora, tentando cantar o hino nacional ou beber água para acabar de vez com a dúvida que o consumiu. Que colou uma foto imensa do Cacique Raoni na parede do quarto. Que tentou, em vão, fazer uma corda com lençóis, prender o beiço nela e pular do quarto andar do hospital, na tentativa de descobrir se era possível viver daquela maneira. Porque para ele já não vali mais viver de maneira normal. Para ele, o mundo era um beiço gigante, impossibilitado de tomar uma Coca Cola numa tarde tórrida de verão.

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