Arquivo da categoria: Contos

Enquanto isso na Sala de Justiça…

– Alô?

– Alô, Aquaman? Aqui é o Governador Geraldo Alckmin!

– Ô rapaz, tudo bom?

– Naquelas. Olha só, tô precisando de uma força sua. Aqui em São Paulo acabou a água. Tentei um consignado com São Pedro, mas não tenho mais o que prometer para ele. Tô no cheque para lá de especial…

– Sei.

– Daí pensei, “pô, o Aquaman é a única pessoa que pode resolver isso”!

– É mesmo?

– Sim!

– O Superman não pode?

– Poder, ele até pode. Mas ele não quer. Desde que aquela história do “Entre a foice e o martelo” eu evito o cara.

– Ah, é o Batman?

– Já tentei outros ricos, sem sucesso.

– E o Lanterna Verde?

– Paulo Nobre já está com a cabeça cheia…

– HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA. Ai, Geraldo. Bom falar com você, cara.

– Digo o mesmo, Aquaman. Mas então, tem como dar uma força?

– Não.

– Sério?

– Sério. E tem mais: vai tomar no seu cu. Você ligou para todos antes de ligar para mim. Se bobear você ligou até para os Super Gêmeos antes de me chamar.

– Eu não…

– Eu sei que ligou! O Arimatéia, aquele peixe que fica no seu aquário, me contou.

– Filho da puta!

– Filho da puta é você! Aliás, são todos vocês que durante anos ficaram “NOSSA O AQUAMAN, QUE BUCHA”! Agora que precisam de mim, aparecem com esse papinho de “AI COMO ELE É LEGAL”. Pois vocês que se fodam!

– Ah, mas você sabe Aquaman, as pessoas são brincalhonas.

– Pois que bebam agora suas brincadeiras. E ó, tem mais um recado que eu quero que você passe para toda a humanidade.

– Qual é?

– MANDA A WARNER ENFIAR O JASON MOMOA NUMA GARRAFA DE ÁGUA MINERAL E EM SEGUIDA ENFIAR ESSA GARRAFA COM O JASON MOMOA NO CU.

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A entrevista

Era o terceiro cigarro em duas horas. Olhava para o relógio a cada minuto e pedia, mentalmente, um café a cada segundo. As palavras do editor ainda ecoavam:

– Vai lá, cara. É a entrevista que poucos fizeram.

Verdade. E deveria ser a mais difícil do jornalismo.

A fonte chegou, com certo atraso. Cinco cigarros já tinha sido queimados, muitos cafés tinham sido tomados. Faltava foco. Era respirar fundo e fazer as perguntas certas, se é que existe pergunta certa nesse caso.

– Opa, tudo bom? Desculpa o atraso, sabe como é, o trânsito…
– Tranquilo. Senta ae. Quer um café?
– Não, obrigado.

Agradeceu a todos os deuses que existem e a todos aqueles inventados. A visão da fonte bebendo café seria demais para sua mente pelos próximos 30 anos.

– Mas me diz, qual é sua pauta? É Mídia Ninja e o escambau?

Começou a suar frio. Olhava para os lados, tentando buscar alguém que o seguisse. Lá fora o mundo corria, como sempre. Ali no café, o planeta parou de rodar por instantes, passando toda sua antiga rotação para cabeça, estômago e demais partes que, quando rodam, enrolam a vida do sujeito.

– Você tá bem?
– Tô, tô, tô sim…

Não estava.

– Só preciso pegar minhas anotações aqui.
– Beleza…

Queria que as anotações tivessem sumido. Queria que o mundo acabasse ali, naquela hora, naquele instante. Achou o maldito caderno com as malditas anotações. “Há quanto tempo você tá nessa? Qual é desse grupo? Você tem relações com governos ou partidos?”. Tudo aquilo que já havia sido questionado voltando a tona de novo. Não conseguiu mais se segurar. Olhou bem para o entrevistado, puxou o ar como puxa quem vai cruzar o Atlântico a nado.

– Seu nome completo?
– Pablo Santiago Capilé Mendes…
– Pablo, me conta mais sobre o Fora do Eixo e…
– E?
– Esquece isso. Não consigo.
– Não consegue o quê?
– Não consigo te entrevistar.
– Por quê?
– Não posso falar, mas não rola…
– Que isso cara, tô aberto ao diálogo, diz aí.
– Posso acender um cigarro?
– Claro, pô!

Tragou como se fosse o último cigarro da Terra. Olhou bem para o entrevistado e visões do futuro vieram à sua cabeça. O Editor falando “MAS QUE MERDA HEIN?”, o Capilé dizendo que a mídia anacrônica é preconceituosa e que seus repórteres são despreparados. Que aquilo tudo fora um absurdo, um desrespeito, uma chacota, um ato impensável de uma mídia moribunda. Pensou no amigos do boteco falando “HAHAHAHAHAHAHA CÊ É MUITO LOUCO CARA” enquanto toma uma dose de Maria-mole porque só conseguia pensar em álcool do ruim e forte. Puxou o ar de novo:

– SÉRIO, CARA, QUAL É DESSA BEIÇA? TIRA ISSO DA MINHA FRENTE, PELO AMOR DE DEUS. NÃO CONSIGO, CARA, DESCULPA. EU TENTO TE PERGUNTAR MAS TUDO QUE VEM NA MINHA CABEÇA É ESSE BEIÇO GIGANTE E COMO DEVE SER A LOGÍSTICA DE SE TOMAR UMA COCA COLA NO VERÃO. CARA, VOCÊ NÃO É CAPAZ DE FAZER UM DOS ATOS MAIS SIMPLES E SUBLIMES DA HUMANIDADE DECENTEMENTE E AINDA QUER CAGAR REGRA DE COMO SE FAZ JORNALISMO, DE COMO SE FAZ CURADORIA CULTURAL, DE COMO SE FAZ O CARALHO A QUATRO. OLHA ESSA BEIÇA, CARA. OLHA. ESSA. PORRA. DESSA. BEIÇA.

Pablo deixou o café indignado. O repórter respirou fundo, deu um gole no café, deixou três vezes a mais que o valor na mesa e sumiu. Não foi mais à redação, não apareceu no bar com os amigos, não atualizava as redes sociais. A família diz que ele está bem. Os médicos dizem que ele está consumido por um distúrbio ainda sem nome, mas que eles gostam muito de chamar de Mal de Capilé ou Beiçolite. Que desenha beiços na parede do hospital e nos cadernos, pautados ou não, que usava em suas reportagens. Que passa horas do dia de beiço para fora, tentando cantar o hino nacional ou beber água para acabar de vez com a dúvida que o consumiu. Que colou uma foto imensa do Cacique Raoni na parede do quarto. Que tentou, em vão, fazer uma corda com lençóis, prender o beiço nela e pular do quarto andar do hospital, na tentativa de descobrir se era possível viver daquela maneira. Porque para ele já não vali mais viver de maneira normal. Para ele, o mundo era um beiço gigante, impossibilitado de tomar uma Coca Cola numa tarde tórrida de verão.

Adolf Hitler

Sabe lá por que cagada o pai do Adolf Hitler resolver dar a ele esse nome. Adolf Hitler da Silva. Ser Hitler era foda. Na infância era foda. As crianças da escola não ligavam o nome aos milhares de mortos, então Adolf ficou conhecido como o Peido. Aquele que com som sai tal e qual o nome do líder nazista, um leve suspiro do cu junto normalmente acompanhado de fritas, feijoadas e outras comidas de sabor incrível e cheiro não tão nobre. Adolffffffffffffffffffffffffff, dizia a molecada. Hitler dava de ombros.

A primeira namorada foi a Ester. O amor tem dessas. Ester nadava no Maccabi e o pai tinha “um lojinha”, como dizem seus pares do ramo religioso. Seu Saul enfureceu quando Hitler se anunciou em casa. Pensou no avô lá na Polônia, teve a mesma sensação. Lá estava Hitler, levando sua joinha. Enfureceu, gritou, proibiu, acendeu menorás e o que mais pudesse acender naquela casa. Mas Ester resistia como se estivesse em Stalingrado. O mundo é sempre cíclico.

A coisa com a Ester desandou, para alegria de Saul e dos amigos da família. Aquilo era um mau agouro do caralho, um desrespeito aos que se foram naquela guerra e em tantas outras. Chegou a faculdade e com ela os amigos babacas que riam porque Adolf Hitler militava com a turma da esquerda. Diziam que o nacional socialismo finalmente haveria de ser socialista. Hitler ficava na dele, como sempre fazem aqueles que carregam qualquer fardo. Pensava em mudar de nome, mas daí vem aquele momento de epifania que costuma foder a minha, a sua, a nossa vida. “E se eu fosse um Hitler do bem”, pensou. Ideia mais babaca não haveria de nascer nos próximos cem anos.

E lá foi Hitler concluir o curso de Ciências Sociais e militar pelos pobres na Somália, nas Filipinas, em Muzambinho e outros fins de mundo. Onde houvesse um pobre sofrendo, lá estava Adolf Hitler da Silva pronto para gritar que o povo não era bobo, abaixo a Rede Globo. Viajava de avião, de carro, de camelo, a pé. Onde houvesse injustiça social, lá estava o super Hitler pronto para combater o mal, com o perdão da rima pobre.

Os anos passaram e Adolf Hitler da Silva foi parar na ONU. O primeiro-ministro de Israel chiou, o da França riu. Pregando a paz, o fim do armamento nuclear e outras utopias, falando 17 dialetos e outras tantas línguas. A imprensa delirava, as organizações não governamentais ficavam confusas e a vida seguia. Sentia que as coisas mudavam. Que aquele nome, outrora sinal de intolerância, de maldade, de filha da putice sem fim, entraria para história agora como um anjo dos pobres, um santo dos desvalidos, a Madre Teresa que deixou o nazismo.

Até que Hitler morreu. Deixou esposa e dois filhos, João e Beatriz, porque essas coisas não são hereditárias. Os funcionários da ONU se juntaram no velório para lembrar o senhor amável que dava bom dia a todos. O premiê de Israel pediu que o nome não fosse mais citado na casa. O da França, riu. E alguns jornais, no dia seguinte, recordaram a história: “Morre Adolf Hitler. De novo.”.

Ao Serra o que é do Serra

José Serra vaga maltrapilho pelas ruas de São Paulo. Pouco cabelo, dentes podres porém afiados, vive a gritar com tudo e todos na região da Praça da Luz. Poucos lembram do dia da posse quando José Serra subiu a rampa do Planalto aos gritos e, para surpresa da multidão, agarrou a faixa presidencial e ficou a chamá-la de sua. Retirado pela segurança, foi diagnosticado com uma doença completamente nova na medicina, uma espécie de cleptomania política, e aos poucos acabou esquecido pelo país, pela cidade e pelo bairro.

Se engana quem pensa que o ex-candidato é um pobre coitado. Serra finalmente conseguiu um governo para chamar de seu. Com as caixas de papelão que recolhe nas ruas, constrói creches, escolas, instituições financeiras. A pouca comida que recebe distribui para as pombas da região. Perguntado se não é assistencialismo, Serra ressalta que hoje a ideia do Estado Mínimo se perdeu em uma cornucópia de grandes corporações e presidentes que posam para fotos em revistas semanais.

Quando um grupo de ratos novatos chegam ao feudo serrista, são saudados com festa pelo político. “Vejam, que belos novos cidadãos temos aqui”, diz. Apesar disso, o ex-governador entrevista a todos, como forma de saber se são bem vindos ao seu pequeno país. “Tenho que agir em reciprocidade a lei brasileira”, relata. Após uma rápida conversa, os ratos são aceitos pela imigração.

Uma característica dos tempos de governador permanece em José Serra: o cachorro Fleury está sempre a postos para manter a lei e a ordem nos cerca de cinco metros quadrados que o governo serrista ocupa. Vira lata com anos de experiência, Fleury costuma rosnar para todos que se aproximam do país. Segundo Serra, “o Fleury é uma figura enérgica, como todo Estado deve ser para manter sua soberania”. Questionado pela reportagem sobre possíveis crimes cometidos antes do cargo, Fleury abanou o rabo e saiu para ver frangos na padaria.

Os populares que passam pela rua têm sentimentos ambíguos sobre o ex-candidato. “Sempre foi um coitado”, diz Maria Almeida, 27 anos. Já para Jose Carlos, 30, Serra é “uma vítima do sistema cruel que é a política”. Opiniões a parte, Serra acredita que está fazendo uma ótima gestão em seu pequeno país de cinco metros. “Pode ver em qualquer pesquisa que meu índice de satisfação é maior que do presidente atual”, diz. Antes de sairmos, o ex-prefeito nos chama para mostrar sua joia da coroa: a faixa de presidente roubada anos antes. “Não é linda? E é minha. Só minha. MINHA PRECIOSA”.

Nas ruas sagradas de Jesus

Não basta morar debaixo da melhor ponte de São Paulo, ter um paletó de tweed de no mínimo dez anos e sapatos com sola inteira, conseguir comer pelo menos um virado a paulista por semana e ser mais um mendigo do Brasil. Jesus agora quer duas caixas de papelão para ter a melhor habitação da Cidade Jardim.

Com nome de filho de Deus e herdeiro de uma miséria a perder de vista, Jesus Nazareno da Silva não é um mendigo comum. Primogênito de mãe fugida e pai desconhecido, o jovem senhor de 25 anos vive em um mundo bem próximo ao do seu homônimo famoso. “Cada dia é uma cruz que carrego, em forma de carroça de papelão”, conta. Amante das guimbas de cigarro, tem em sua coleção uma bituca de John Player Special, conseguida em 1998 e conservada. Quando quer badalar, aparece no sopão da Sé para confabular com amigos a alta do preço das bebidas e os eventos da cidade nos quais o ILC (Índice de Latinha por Cachaceiro) é tão alto quanto o Dow Jones em dias bons. E assim como Jesus Cristo, Nazareno exibe a forma física de um flagelado: o peso é desconhecido há tempos, mas não deve passar dos 60 quilos bem conservados graças às sobras de restaurantes, sem contar o bíceps de 20 centímetros construídos com o dia a dia de carroceiro. Tal silhueta – e a falta de patrimônio – lhe garante sucesso com mendigas, crackeiras e outras figuras únicas da noite paulistana. Com poucos prazeres ao alcance, o mendigo poderia simplesmente circular pela cidade frequentando as melhores bocas e os melhores muquifos. Mas ele quer mais.

A coroa de espinhos do príncipe da paz

Quando repousa sua cabeça na edição de setembro de 2009 do Financial Times – “encontrei na Paulista, os gringos são os melhores” – Jesus sonha em repetir o sucesso do seu homônimo no pós-vida. E a partir desse sábado ele começará seu novo empreendimento. “Arrumei umas pedrinhas e vou começar a distribuir, na míuda, aqui na Sul. O mercado está em alta, com demanda e pouca concorrência”, explica, como se fosse leitor diário do Valor Econômico. “Cresci ouvindo minha mãe dizer que eu era um vagabundo e isso serviu de estímulo para meu modo de vida”. “Sempre engolia seco quando ela dizia isso, mas hoje engulo com uma dose de Sapupara”.

A grande referência para Jesus é o Tolói, o primeiro mendigo que lhe deu ajuda na vida. “O Tóloi foi um grande amigo e um grande mestre. Desde como conseguir uma grana para a pinga até a melhor roda para a carroça, aprendi tudo com ele”. Desde menino, o acompanhava em mendicâncias na Rua XV de Novembro e na região da Sé. “Eu sempre estava com o Tolói até o dia que uns playboys queimaram ele. Nesse dia resolvi deixá-lo porque na rua é a lei do que mais corre. Mas o que me fascinava no Tolói era o espírito empreendedor dele. Ele foi um dos primeiros caras a entregar as latinhas já amassadas para os caras da reciclagem”.

Além da figura paterna de Tolói, outro ídolo para Jesus é o escritor Charles Bukowski. “Não conheço muito da obra do cara, porque não sei ler, né? Mas uma vez uma noinha que eu dava uns pegas me contou que o cara era tipo eu, mendigão estilo de vida e daí curti”. Mas essa aproximação com Bukowski rendeu a Jesus um preço alto. “Outro dia fui falar dele na rua, lá na Paulista, quando estava andando, daí um monte de moleque riquinho chegou achando que eu era todo intelectual perdido, deu maior merda e nem me pagaram um rabo de galo”.

Apesar de não cuidar muito da aparência, Jesus tem fama entre as mulheres. “Amigo, nessa caixa de papelão do Magazine Luiza já deitou muita princesa”, conta. A atual, Vanderléia, tem 27 anos e o cabelo mais sujo já visto pela humanidade. Sorri com a língua entre os dois dentes e sofre de uma luxação no pé direito, possivelmente causada pelo excesso de álcool. “Quando conheci a Van, foi amor a primeira vista”, recorda. “Estava tão apaixonado que quis fazer um agrado, mas não queria mostrar que eu estava bem de vida na rua. Então comprei meio pão com mortadela, por R$ 1,25, porque não queria ostentar”. Algumas semanas depois, já com o relacionamento consolidado, Jesus deu de presente um skate para ajudar na locomoção da amada. “Consegui com um nóia, que veio aqui e empenhou por R$ 4, uma fortuna, mas vale tudo para a princesa”.

O universo que Jesus gravita é, de fato, um mundo paralelo, onde a lógica tradicional se encontra em suspenso. Sua estreia no mundo dos negócios começou como catador de latas na Praça da Sé. “Achava a escola muito puxada, por isso decidi ir para a rua”, conta. Hoje empresário de sucesso no ramo de entorpecentes, Jesus não nega seu passado empreendedor. “Sonho um dia em reciclar as latinhas que eu pegava e transformar em cachimbos para a clientela. É o que é chamado de venda casada, não é?”.

Pobre, desdentado e aparentando ser mais velho do que realmente é, Jesus gosta de badalar. “Sempre dou um pulo com os amigos ali na Paulista para dar aquela dormida no Parque Trianon depois de umas vinte doses de cachaça”. Para locomoção, ele as vezes tomas o skate da namorada emprestado. “Enquanto ela fica na batalha dos pedidos, eu tô exercendo meu papel de macho alfa”. Sucessor direto de ninguém, Jesus tem um longo caminho pela frente. Aos que duvidam da sua capacidade e destreza de viver sem banho, sem comida e sem uma cueca limpa, é bom lembrar que Jesus de Nazaré também foi desacreditado. Nada impede que o representante de sabe-se lá quantos milhares de crucificados, com seu nome de salvador, seus músculos mirrados, sua falta de empenho e a falta de capital, seja um dia chacinado nas ruas de São Paulo por uma gangue de malucos ou por moços ricos e entediados. Mas, se bebesse menos e lesse mais, mesmo que fosse apenas biografias de grandes mendigos como Bukowski, Joe Gould e tantos outros, suas chances – e sua vagabundice – seriam ainda maiores.

PS: Esse texto é uma homenagem à aula magna de jornalismo que a Veja Rio deu com essa matéria. Vão com deus.

Arrebatador

It’s the end of the world as we know it…

Alguns estavam no parque, deitados uns na vertical, outras com a cabeça apoiada na barriga, na horizontal, a apontar coisas e rir, a ler, a ouvir. Outros trabalhavam nas portarias, no transporte público, na Receita Federal. Tinha gente fumando, gente bebendo, gente cheirando. Uns que matavam e outros que morriam antes da hora. O fato é que ninguém acreditou, porque era a décima, décima primeira vez que o mundo acabaria?

A maioria passou alheia ao evento. As piadas surgiram, as reclamações das piadas surgiram. Teve meia dúzia de gatos pingados que acreditaram, para despeito dos escaldados. Esses diziam que agora ia, como se fosse a crença em um gol ou na loteria. O que é engraçado, porque parecem que torcem para morrer só para ter razão, mas devem se deprimir ao lembrar que não haverá ninguém para escutar um “EU DISSE” ou ler a placa “EU JÁ SABIA!”.

E o evento mais uma vez atrasou. Deixou para a próxima. Talvez nos ache gente boa. “Pô, matar aquela galera agora?”. Algum maldoso pode soltar “Mas se liga no que eles estão fazendo”, ao que o evento responde “Deixa os caras, eles estão se divertindo, larga de ser careta”. Porque o evento sabe que não somos planeta que se cheire. Mas vai, estamos melhor que nossos irmãos aí da galáxia que nem dão as caras na rua para falar “Olha só, estamos afim de um contato, um alô, um Follow Galaxy”. Certeza que ele volta daqui uns anos. E quando isso acontecer, vai mudar de ideia e arrebatar outras bandas pois as pessoas estarão cheirando, fumando, bebendo, trabalhando, apontando, lendo, rindo, odiando, amando, ou só bobolhando.

…and I feel fine.

O assassinato de Osama Bin Laden pelo chapado Barack Obama

Isalamabad – Paquistão

Osama: Ae mina, chega aí, vai aonde?
Mina: Vô ali Osama.
Osama: Traz um mojito, quebra essa pro Barba?
Mina: Claro, Barbinha!
Ahmed: DAE OBAMA!
Osama: Se liga ae, Sharon.
Ahmed: Tá nervoso sangue?
Osama: Tô com aquela coceira no calo, manja. Aquela que me dá um toque de que vai dar merda…
Ahmed: Ô, qual é Osama. Tá com o dominó aí?
Osama: Tá na mesa.
Ahmed: Ah, então é por isso que teu calo tá coçando nego, tá prevendo a tragédia do domi…

[barulho de tiro]

Osama: AHMEEEEEEEEEED? AHMEEEEEEEEED? SEUS PUTOS!

[barulho de coronhada]

Casa Branca – Washington – EUA

Obama: SE LIGAL BILL que vai passar aquele episódio do Family Guy que o Hitler fuma maconha é o melhor hahahahahahaahaha.
Bill: Só é presida! Agora libera o refém aí que tá osso.
Obama: Se liga aí Bill,  sou eu que mando nos goró e nas paranga.
Bill: Mal ae maconheiro-em-chefe.
Obama: Se liga, o BO tá tocando. Alô?
Bob: Alô presida se liga na fita pegamos o Mulambo!
Obama: Mulambo qual?
Bob: O Osama, seu xará!
Obama: Para de dar teco seu loco tô vendo seu nariz branco daqui!
Bob: Tô na real presida, o bico deu goela que o Mulambo tava em Islamabad com as mina e os mano!
Obama: MALANDRO VOU ESPALHAR O CAÔ QUERO VER ESPALHAR ESSA BRISA LOCA DO DOMINGO ABRAÇO BOB BOM TRABALHO SEU NÓIA.
Bob: Falou presida, aquele salve.
Bill: Que pega?
Obama: MATARAM O OSAMA CÊ TÁ LIGADO COMO TÔ VIDRADO NISSO?
Bill: HAHAHAHAHAHA TÁ NA MÃO DO PALHAÇO NÉ LOCÃO?
Obama: SE LIGA QUE SOU O PRESIDENTE TÔ FRITANDO VOU ALI COMUNICAR MEUS CHEGADOS QUE TÔ NA CRISTA DA ONDA ESCULACHEI NAS ARÁBIAS MAIS QUE O ALLADIN E O GÊNIO!
Bill: Puta filme maneiro para ver chapado.
Obama: Segura o VHS aí que eu já volto.

Eu sou ditador mas tô na moda…

– Sério, preciso te falar uma coisa.
– Diga lá!
– Posso mesmo? É que você é ditador e tal, e sabe como é, não é prudente falar as coisas…
– Fala ae, pô. Tô mandando!
– Bom, isso me coloca numa sinuca de bico porque agora é ordem e…
– Puta que o pariu…
– Tá bom. O lance é o seguinte: já pensou  em usar um terno?
– Como?
– É, um terno. Vê só, tava tudo muito bom, tudo muito bem. Só que você sempre sai na rua com essas roupas malucas. Parece que você é um dos filhos de Ghandi com o Jim Morrison, é tudo muito louco…
– E?
– Daí chama atenção né. Se fosse só um terno, sem aquele monte de condecoração que sabe-se lá como você ganhou,  tudo seria mais simples.
– Entendi…
– Ou uma coisa mais simples, sabe, não precisa ser necessariamente um terno. Pode ser, sei lá, uma calça social, uma camisa normal, nada com muita cor e com muito pano. Você tem uma ditadura, não uma festa a fantasia. Se fosse o segundo, era mais legal ir, sei lá, de Batman ou de Elvis.
– Mas eu curto, é meu estilo. Uns têm uns bigodões, outros um chapéu bacana. Eu tenho essas cortinas aqui.
– Sei, estiloso mesmo  se vestir como se fosse o Cauby Peixoto…
– Pô, pareço mesmo o Cauby?
– Para caraleo!
– Chama aí meu assessor para roupas especiais que vou dar um tapa no visual. Vou chegar na ONU com a cara do Chico Buarque e quero ver se a Hillary nnão vai se derreter. Ela vai me querer, eu sei.

O mundo seria mais pacífico se os líbios pudessem falar com fraqueza. Ou menos ridículo, vai saber.

Apocalipse humano

Capítulo 1 – O bar mais próximo

É desconhecido quando o primeiro zumbi virou humano. Sabe-se apenas que ele saiu a procura de um bar e, quando encontrou, bebeu cerveja vencida como se fosse recém fabricada.

O fato e que as coisas iam bem desde que o último humano teve o cérebro devorado e virou um ser que caminha como um bêbado em uma daquelas pontes dos filmes de Indiana Jones. Cerca de quatro anos após o ultimo ataque, os zumbis evoluíram e muito, criando escolas, centros de pesquisa e uma fábrica de cérebros com faturamento de fazer inveja a qualquer gigante de mercado quando os humanos ainda existiam. Isso sem contar, claro, a involução intelectual, responsável pelo fim dos dilemas, das religiões, das formas de pensar antagônicas e, principalmente, do fim da opinião. Esse retrocesso foi de suma importância para a, digamos, desumanidade, vez que sem divergências não há brigas e sem brigas a humanidade evolui pelo menos em qualidade de vida. Ou desumanidade, no caso em questão.

Pois bem, agora o motivo era para pânico. Se um virou humano assim, quase do nada, outros poderiam virar. Em pouco tempo voltariam os tiros na cabeça, as caçadas sem misericórdia, toda aquela histeria com aqueles que eram e que voltarão a ser “os mortos vivos”. Algo precisava ser feito. Rapidamente.

Antonio Mascarenhas vestiu seu terno puído, beijou o lado da face que ainda restava da esposa, coçou com cuidado parte do crânio exposto do filho mais novo e saiu para o trabalho. Saiu de casa e avistou a pilha de automóveis destruídos, as casas caindo aos pedaços. Encontrou o vizinho a porta, também de saída.

“Booooooooooooom diiiiiiiiiiiiiiaaaaaaaaaaaa”, disse sôfrego.

“Diiiiiiiiiiiiiiiiiiiaaaaaaaaaaaaaaa”, respondeu o vizinho, como se estivesse a beira da morte.

Antonio foi andando a passos lentos e nem um pouco decididos. Para ele era uma bela manhã. Ele só não sabia o que estava reservado naquele dia.

O Escritório de Assuntos Zumbis amanhecera agitado. Funcionários corriam, ou melhor, andavam lentamente de um lado para o outro, preparando documentos para a declaração oficial sobre a novidade: um humano acordara entre eles aquela manhã e isso só poderia ser ruim. Estagiários colhiam todos os documentos que não foram destruídos, advogados discutiam como bater de frente com a Liga dos Zumbis Pela Humanidade que, ao que parece, começaria de novo a atuar em defesa dos “vivos-vivos” como eram sarcasticamente chamados. A equipe de relacionamento de imprensa do presidente preparava um discurso para acalmar a população e o serviço secreto trabalhava para descobrir se era um fenômeno mundial. Antonio deu bom dia a todos em sua sala quando chegou, mas quase não foi ouvido.

Quando acordou de um sonho estranho, Carlos teve a sensação de que precisava ir ao banheiro. Não que necessidades fisiológicas fossem uma constante na vida de um zumbi. Ao contrário, por não se incomodarem com o cheiro podre que emanava do povo mais do que o poder da constituição, suprir esse tipo de necessidade estava fora de cogitação. Mas uma estranha e súbita sensação fez com que ele partisse em direção a privada fora de uso há anos e despejasse dentro dela toda a urina que estava em sua bexiga. Deu descarga e, mecanicamente, foi ao espelho mais próximo. Um escorregão, próximo a um desmaio, quase causou um acidente. Carlos não tinha mais a órbita do olho esquerdo inteiramente a mostra. A sua bochecha direita estava inteira, como era antes. E seu cabelo, apesar de ainda um pouco ralo, estava maior. Bem maior. Sentiu um cheiro nauseabundo, como se estivesse no meio da maior pilha de podridão que o homem fosse capaz de fazer. E estava.

Correu em direção a sala e olhou para rua. Viu o vizinho da frente, o Aristeu, devorando um cérebro brilhante, não no sentido einsteniano da coisa, mas sim brilhante como o luar, um diamante, um quindim bem preparado. Sentiu vontade de vomitar, mas guardou para si junto com um grito de horror. Seria imprudente e deselegante atrapalhar o  jantar de um morto-vivo.

Revirando as gavetas em busca de uma muda de roupa que não tivesse virado uma pilha de trapos fedorentos, Carlos encontrava fotos antigas. Via nelas o mesmo cara que viu no espelho minutos atrás, com um pouco mais de cabelo e uma cor melhor, mas ainda assim o mesmo cara. Precisava sair dali antes que fosse descoberto. Cérebro enlatado poderia ser bom, apesar da ânsia de vomito causada por sequer pensar em comer aquilo, porém um fresco, recém saído de uma caixa craniana era tão raro quanto um bife em uma situação como aquela. Pensou para onde poderia ir, se haveria mais alguém que tivesse passado pelo mesmo que ele passara há pouco, se haveria mais humanos. Riu quando se lembrou do termo “vivos-vivos”. Achou uma roupa decente e foi ao bar.

 

Fidel em deus quem é justo

Havana. Aquele sol quente, brisa fresca, clima caribenho, rum jorrando como água. Duas horas gastas num Cohiba e papo animado.

– Amanhã eu falo.
– Tem certeza?
– Ô se tenho. Não dá mais. Esse sorvete me cansa.
– Mas você tem do bom e do melhor. Até tênis Nike, uísque, essa porra toda você tem.
– Mas imagina nós de Audi, ou de Citroen, indo aqui, indo ali, sem essa de polícia.
– Você nem toma a porra do sorvete do Estado.
– Essa ilha tem o cheiro dessa desgraça.
– Mas vai dizer o quê?
– Que esse modelo econômico não dá mais. Vou abrir as portas para Miami.
– E o Che?
– Se fode.
– E o Raul?
– Pau no cu.
– E o Cienfuegos?
– Não tenho rima para esse não.
– Você vai jogar fora tudo que foi feito em Sierra Maestra?
– Vou, tô nem aí. Nem Marx pode me julgar.
– Mas pensa na molecada nas faculdades, que gosta de arrotar esse monte de coisa.
– Se deram Mao, hohohohohohoho.
– Tá bem Fidel?
– Tô morrendo. Tenho esse direito. Quando a gente ama qualquer coisa serve para relembrar. O Capital da mulher amada tem muito valor.
– Você tá é bêbado igual ao Stálin…
– Eeeeeeeeeeeeeeee hoje, o que encontrei, me deixou mais triste, um pedacinho dela que existe,  um Livro Vermelho no meu paletóóóóóóóóó…
– Sotomayor, fecha a conta!

E carregando o ditador, dois funcionários pensavam como será bom o dia em que toda essa história de comunismo acabar. Não para votar, ter parlamento, essas bobagens todas. Apenas para poder entrar no Pirate Bay e baixar o disco novo da Lady Gaga sem que o governo saiba.