Eu não sou cicloativista

Segundo o Endomondo, pedalei 1.521 km em menos de um ano. Se mantiver essa média, em dez anos terei dado a volta na Terra. Tudo isso na cidade de São Paulo, indo da Paulista para o Tucuruvi, de Pirituba para Pinheiros. Usando calçada, pista da direita, corredor da pista da direita, ciclovias, ciclofaixas. E nesse quase um ano tendo a bicicleta como principal meio de transporte, acompanhei no mínimo três mortes e alguns acidentes graves divulgados pela mídia na Avenida Paulista.

É foda andar de bicicleta em SP. Todo mundo têm pressa, ciclistas e motoristas. Não sei dizer qual pressa é resultado de outra, mas ela está lá. Na Rebouças, por exemplo, me sinto obrigado a ir pela calçada por receio dessa pressa paulistana. É uma subida, e a minha velocidade deve ser de 10 km/h. Imagina aquele senhor no seu BMW tendo que aguentar o gordinho aqui pedalando. Baixa um Exu Vin Diesel no homem vindo das mais profundas trevas das videolocadoras e sites de torrent. E ele dá aquela acelerada, buzinada, roncada de motor alemão que dura toda uma eternidade.

Na Paulista, exceto aos domingos quando tem ciclofaixa, a direita é a melhor pedida. Dos ciclistas e dos ônibus. Alguns são legais, te dão espaço para passar e ficam atento às suas buzinadas. Outros encarnam o Piquet e são paus-nos-cus com ou sem o volante. Nela, eu costumo passar os faróis vermelhos para pedestres, porque temos ônibus, táxis e carros com pressa.

Na Faria Lima tem ciclovia. E tem aqueles que, quando vão fazer a conversão para a outra pista, insistem que é uma boa ideia parar em cima da faixa destinada às bicicletas e ali ficar, preso num trânsito dantesco, tendo os ciclistas como companheiros.

Em Pirituba tem a Raimundo Pereira de Magalhães. A prefeitura colocou uma faixa na curva: ATENÇÃO – CICLISTAS NA PISTA. O vento, as chuvas e mais outras mazelas derrubaram a faixa. Hoje não é necessário ter atenção.

Na Sumaré tem ciclovia. Quando a avenida está vazia, desço pela faixa das motos. Sou babaca de fazer isso? Claro que sim.

O lance é que é foda viver em comunidade. Vem aquilo do seu direito terminar onde começa o do outro. Ou algo assim, nunca acerto esse clichê. Se transportar numa cidade como São Paulo sempre será difícil. E alguns podem dizer “mas em NY não é assim”. Exato, mas essa Nova Iorque dos sonhos é uma ilha, e aqui as ilhas são os homens, já que estamos falando de clichês. Sempre haverá acidentes, tanto para gregos quanto para troianos.

Mas a partir do momento alguém atropela um ciclista e foge pelo menos 10 km com o braço dessa pessoa presa ao carro, passamos de todo esse blábláblá de cicloativismo, quem está certo e quem está errado e estamos longe de um mero acidente. Porque não bastasse o sangue frio de atropelar alguém e deixar a cena em fuga, a pessoa ainda consegue ter a coragem de retirar um braço de seu caro e jogá-lo em um córrego da Ricardo Jafet. O fato do ciclista atropelado depender do braço para trabalhar aumenta mais a história, mas pouco importa. E também importa menos ainda se o cara era trabalhador, talibiker, oficial nazista foragido. É para pensarmos como caralhos alguém anda dez quilômetros com um braço de uma pessoa preso ao carro e, quando o vê, acha por bem jogá-lo em um córrego?

Esse cara não só privou um trabalhador de exercer seu ofício, um pai de sustentar uma família. Ele traz a tona os instintos mais primitivos, como diria Roberto Jefferson, para a discussão de mobilidade na cidade. Num momento em que a cidade adota a bicicleta como alternativa para o trânsito macabro de sexta-feira passada, essa estupidez, essa ignorância ocorrida na madrugada de domingo acirra uma rivalidade que nem deveria existir. Pululam frases como LUGAR DE BICICLETA NÃO É NA PAULISTA e CARRO BOM É NA GARAGEM quando a única coisa que deveríamos pensar é: em que momento erramos para que pareça uma boa ideia atropelar alguém, fugir com seu braço por quilômetros e despejá-lo num córrego da cidade?

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Lá vem o Chavez

– Olha quem tá aí!
– E ae rapeize?
– Hugo! Achei que você já tava aqui faz tempo!
– Estava, mas me perdi. Essa porra é grande pacaraleo!
– Ô Leon, ó quem chegou!
– Dae Hugo, joinha na Cortina?
– Embaçado em Stalingrado, Trótsky. O bicho tá pegando lá em cima.
– Tô sabendo, o Vlado vê essas paradas no Reader. Ô Zéf, traz umas cervejas aí que o Hugo chegou!
– Tem Heineken, por causa da estrela vermelha, risos.
– Então pessoal, vou ficar só uma carinha aqui. O homem me chamou.
– Hahahahahahahahaha, já chegou chegando.
– Não, é sério.
– Por que caralhos?
– Sabe aquele lance do diabo lá na ONU? Então, me benzi e pãns, daí deus achou que eu sou da vibe dele.
– Mas você é?
– Claro que não né, aqui é comunismo tru, não pokemon!
– Pô o quê?
– Desencana. Mas enfim, vou ver qual é lá no pico. Se vir o Fidel, manda abraço.
– Ele também se perdeu no meio do caminho?
– Não, ele está discursando desde que chegou. Mas daqui a pouco ele pinta.

E entoando aves marias, Chavez foi ter com deus para explicar que história é essa de comunista bolivariano que anda se benzendo e dizendo “graças a deus”.

Adolf Hitler

Sabe lá por que cagada o pai do Adolf Hitler resolver dar a ele esse nome. Adolf Hitler da Silva. Ser Hitler era foda. Na infância era foda. As crianças da escola não ligavam o nome aos milhares de mortos, então Adolf ficou conhecido como o Peido. Aquele que com som sai tal e qual o nome do líder nazista, um leve suspiro do cu junto normalmente acompanhado de fritas, feijoadas e outras comidas de sabor incrível e cheiro não tão nobre. Adolffffffffffffffffffffffffff, dizia a molecada. Hitler dava de ombros.

A primeira namorada foi a Ester. O amor tem dessas. Ester nadava no Maccabi e o pai tinha “um lojinha”, como dizem seus pares do ramo religioso. Seu Saul enfureceu quando Hitler se anunciou em casa. Pensou no avô lá na Polônia, teve a mesma sensação. Lá estava Hitler, levando sua joinha. Enfureceu, gritou, proibiu, acendeu menorás e o que mais pudesse acender naquela casa. Mas Ester resistia como se estivesse em Stalingrado. O mundo é sempre cíclico.

A coisa com a Ester desandou, para alegria de Saul e dos amigos da família. Aquilo era um mau agouro do caralho, um desrespeito aos que se foram naquela guerra e em tantas outras. Chegou a faculdade e com ela os amigos babacas que riam porque Adolf Hitler militava com a turma da esquerda. Diziam que o nacional socialismo finalmente haveria de ser socialista. Hitler ficava na dele, como sempre fazem aqueles que carregam qualquer fardo. Pensava em mudar de nome, mas daí vem aquele momento de epifania que costuma foder a minha, a sua, a nossa vida. “E se eu fosse um Hitler do bem”, pensou. Ideia mais babaca não haveria de nascer nos próximos cem anos.

E lá foi Hitler concluir o curso de Ciências Sociais e militar pelos pobres na Somália, nas Filipinas, em Muzambinho e outros fins de mundo. Onde houvesse um pobre sofrendo, lá estava Adolf Hitler da Silva pronto para gritar que o povo não era bobo, abaixo a Rede Globo. Viajava de avião, de carro, de camelo, a pé. Onde houvesse injustiça social, lá estava o super Hitler pronto para combater o mal, com o perdão da rima pobre.

Os anos passaram e Adolf Hitler da Silva foi parar na ONU. O primeiro-ministro de Israel chiou, o da França riu. Pregando a paz, o fim do armamento nuclear e outras utopias, falando 17 dialetos e outras tantas línguas. A imprensa delirava, as organizações não governamentais ficavam confusas e a vida seguia. Sentia que as coisas mudavam. Que aquele nome, outrora sinal de intolerância, de maldade, de filha da putice sem fim, entraria para história agora como um anjo dos pobres, um santo dos desvalidos, a Madre Teresa que deixou o nazismo.

Até que Hitler morreu. Deixou esposa e dois filhos, João e Beatriz, porque essas coisas não são hereditárias. Os funcionários da ONU se juntaram no velório para lembrar o senhor amável que dava bom dia a todos. O premiê de Israel pediu que o nome não fosse mais citado na casa. O da França, riu. E alguns jornais, no dia seguinte, recordaram a história: “Morre Adolf Hitler. De novo.”.

Django

O Doutor Schultz (que talvez tenha parentesco com a finada Paula Schultz) é algo novo na filmografia do Tarantino. Porque se compararmos com o Coronel Hans Landa se Bastardos inglórios, ele é um bom homem, correto? Não.

Doutor Schultz é tão sangue frio quanto Landa quando o lance é sentar o dedo na galera. Claro que matar judeus difere e muito de caçar criminosos em uma época na qual a lei era na base da pólvora. Mas morte é morte e quem relativiza o tema é o Stálin. Mas, porém, contudo, adiante, todavia e Emerson Sheik, herr doctor é de uma humanidade incrível para a época e o local que ele está, enquanto Hans Landa é de uma crueldade estrondosa em outro espaço/tempo.

Se tem um filme do Tarantino que pode ser comparado com Django, esse é Bastardos inglórios. Temos a questão racial em pauta, os escravos americanos foram os judeus da segunda guerra. Porque sim, o mundo é racista, mas os EUA tem seus rincões onde ainda pode ser assombroso um negro andando a cavalo. E nessa comparação, Tarantino fez coisas incríveis.

Para essa comparação, tomemos o exemplo do Doutor Schultz. Ele é europeu, culto, sabido e um atirador da porra. Tudo aquilo que os senhores de escravos americanos gostariam de ser, mas abominam. Tarantino foi incrível ao colocar um alemão como defensor dos escravos, deixando claro que Schultz é contrário à barbárie. Ele mata não por prazer, mas pelo dinheiro, até o momento em que vê Calvin Candie soltar os cachorros em cima de um escravo. Literalmente. A partir daí o sempre sensato Doutor Schultz se humaniza e perde a calma peculiar de toda e qualquer situação de perigo.

Hans Landa é o contrário. Insano desde o princípio, tenta mais a frente um acordo para viver tranquilo na América. É sensato abandonar o Titanic de insanidade que foi o nazismo. Ambos momentos de sensatez são frustrados porque o Tarantino quer que o caos reine e foda-se a polícia, como dizem os gringos.

Mas quem melhor define o filme é o personagem de Samuel L. Jackson. Ele é o exemplo de que nosso negócio é ser desumano. Se pudesse, Stephen cavalgaria de capuz branco da Klu Klux Klan [motivo de uma piada incrível e que já vale o filme]. Se lhe fosse permitido, sairia a açoitar negros nos alvos campos de algodão do Mississipi.

E Stephen não demonstra em nenhum momento que gostaria de ser branco. Demonstra gostar de ser o que é, uma pessoa servil e – com o perdão do trocadilho – um ser vil. Ele não odeia negros pelos mesmos motivos estúpidos dos brancos, de hegemonia racial e outras babaquices. Ele odeia os negros por odiar. Seu racismo é diferente da ilusão absurda de que os cérebros dos negros são inferiores ao de Isaac Newton, por exemplo.

Esse novo Tarantino, que deixou de lado as tramas mais obscuras como o cinema dos anos 70, os gibis cheios de violência e os filmes chineses para recontar histórias mais universais, é tão incrível quanto aquele que fez de Kill Bill um dos melhores filmes do cinema. Usa, claro, de seus maneirismos de estilo e de suas referências já não tão obscuras afinal, sempre tem alguém que vai atrás da bibliografia. Mas ainda assim, sempre aparece com algo novo, ou reinventa um clássico. Desta vez, é o racista que odeia sua própria raça.

Não sei vocês, mas aguardo um filme notável do Tarantino sobre as Cruzadas.

Flw vlw Playstation 2

A Sony resolveu não mais fabricar o Playstation 2. Só vai vender o que está nas fábricas e depois disso ele será uma daquelas peças de museu, como a máquina de escrever, o mimeógrafo, o Super Nintendo e tantos outros heróis de outras épocas.

Vá lá você dizer que sou saudosista e com razão. Meia hora de Santa Efigênia já me dá ideias como comprar um Mega Drive, pensamentos esses que somem quando penso onde vou ligar esse cara. Nas TVs de hoje, superledamoledducaled? Preciso comprar também a Sharp tubão, para voltar a 1992, quando o grunge dominava o mundo e Sonic, Toki e Kid Chameleon eram muito melhores que o Screaming Threes. É um gasto de grana e, principalmente, de espaço, que não rola nos dias de hoje. Preciso criar o Recanto do Guerreiro aqui em casa.

Voltando ao PS2, que ideia brilhante. Lembro que quando vi o Playstation 1, babei até molhar o Saara. Era incrivel, era mágico, era poligonal. Vivi grandes histórias com Metal Gear Solid, Final Fantasy VII, Simphony of the dark e Winning Eleven até ver aquela caixa preta na casa de um amigo. Quando ele ligou a Caaba dos videogames, puta merda. Avancei sei lá, 218 anos em tecnologia. Aquilo era incrível. O Winning Eleven era como um jogo de futebol verdade. O Metal Gear Solid 2 era como a espionagem de verdade. E surgiu sorrateiro God of War, sem dúvida meu top três da vida. Foram diversos CDs, alguns memory cards e outros tantos controles de vitórias incríveis, derrotas injustas e filhos da puta a esmo em frente a TV. O mundo avança, a Microsoft melhora as coisas e a Sony bate de frente com o PS3, o videogame que tenho hoje e o qual venero como se fizesse chover maná dos céus. Mas sempre que remasterizam um jogo incrível da caixa preta eu estou lá, recordando do console mais vendido que esse mundo verá. Vaticino sem dó pois os videogames serão cada vez mais incríveis. Mas o Playstation 2 é Bastilha, é Fórum Romano, é Kratos rasgando as entranhas dos deuses.

Te vejo na Santa Efigênia, caixa preta.

Ao Serra o que é do Serra

José Serra vaga maltrapilho pelas ruas de São Paulo. Pouco cabelo, dentes podres porém afiados, vive a gritar com tudo e todos na região da Praça da Luz. Poucos lembram do dia da posse quando José Serra subiu a rampa do Planalto aos gritos e, para surpresa da multidão, agarrou a faixa presidencial e ficou a chamá-la de sua. Retirado pela segurança, foi diagnosticado com uma doença completamente nova na medicina, uma espécie de cleptomania política, e aos poucos acabou esquecido pelo país, pela cidade e pelo bairro.

Se engana quem pensa que o ex-candidato é um pobre coitado. Serra finalmente conseguiu um governo para chamar de seu. Com as caixas de papelão que recolhe nas ruas, constrói creches, escolas, instituições financeiras. A pouca comida que recebe distribui para as pombas da região. Perguntado se não é assistencialismo, Serra ressalta que hoje a ideia do Estado Mínimo se perdeu em uma cornucópia de grandes corporações e presidentes que posam para fotos em revistas semanais.

Quando um grupo de ratos novatos chegam ao feudo serrista, são saudados com festa pelo político. “Vejam, que belos novos cidadãos temos aqui”, diz. Apesar disso, o ex-governador entrevista a todos, como forma de saber se são bem vindos ao seu pequeno país. “Tenho que agir em reciprocidade a lei brasileira”, relata. Após uma rápida conversa, os ratos são aceitos pela imigração.

Uma característica dos tempos de governador permanece em José Serra: o cachorro Fleury está sempre a postos para manter a lei e a ordem nos cerca de cinco metros quadrados que o governo serrista ocupa. Vira lata com anos de experiência, Fleury costuma rosnar para todos que se aproximam do país. Segundo Serra, “o Fleury é uma figura enérgica, como todo Estado deve ser para manter sua soberania”. Questionado pela reportagem sobre possíveis crimes cometidos antes do cargo, Fleury abanou o rabo e saiu para ver frangos na padaria.

Os populares que passam pela rua têm sentimentos ambíguos sobre o ex-candidato. “Sempre foi um coitado”, diz Maria Almeida, 27 anos. Já para Jose Carlos, 30, Serra é “uma vítima do sistema cruel que é a política”. Opiniões a parte, Serra acredita que está fazendo uma ótima gestão em seu pequeno país de cinco metros. “Pode ver em qualquer pesquisa que meu índice de satisfação é maior que do presidente atual”, diz. Antes de sairmos, o ex-prefeito nos chama para mostrar sua joia da coroa: a faixa de presidente roubada anos antes. “Não é linda? E é minha. Só minha. MINHA PRECIOSA”.

O candidato do churrasco

O ano era mil novecentos e Araci de Almeida. No bairro da Casa Verde, Dr. Alberto Calvo se elegia vereador ano sim, outro também. Uma espécie de Fidel Castro da democracia. Hoje o mesmo Dr. Calvo concorre para a vaga de vereador, representando o povo da Casa Verde, Freguesia, Limão e – grande ironia – Pirituba.

Voltando a Casa Verde da era de ouro, a Casa Verde de vida simples. Crianças na rua, boteco na esquina, gol no portão da metalúrgica. A diversão da molecada era simples mas, como toda e qualquer diversão, precisava de um aporte estatal para acontecer. Foi então que surgiram alguns amigos da rua Atilio Piffer com uma proposta:

– QUEM DISTRIBUIR OS PAPELZINHO DO CALVO VAI GANHAR CHURRASCO NO SEICHO-NO-IE!

Vejam amigos, carne de graça em um centro religioso. Eu faria campanha para o Pol Pot em troca dessas carnes, pois não havia bom senso ou noção do perigo. E assim fui, com outros amigos da saudosa Rua Jaboatão, entregar santinhos do Dr. Calvo que sim, é careca. Missão dada é missão cumprida e acabamos com a papelada. Acredito que alguns jogaram os seus no esgoto, mas até entre as crianças existe a galera da banda podre. Tudo pronto, fomos para a porta do Seicho-no-ie que era a hora da maminha.

Vou divagar um pouco. Neste dia, uma grande lição política nos foi dada. Mais importante que a leitura de Maquiavel, mais necessária que conhecer os escritos de Tocqueville, foi saber desde criança que todo político, ou ao menos a grande maioria, é um filho da puta de marca maior. “Nossa Julio, mas você não acredita nas instituições?”. Amigos, eu fui enganado pela galera do Seicho-no-ie que prega a paz e o escambau. Quero que as instituições sejam erguidas em uma zona de guerra, problema delas.

Volto para contar que chegamos a porta do Seicho-no-ie famintos e com a sensação de dever cumprido. Na porta, o segurança nos olhou incrédulos e perguntou ao líder da molecada:

– Pois não?
– Nós viemos para o churrasco do Doutor Calvo.
– Hahahahahaha, tá bom.
– Nós entregamos os santinhos e prometeram o churrasco.
– Circulando, molecada.

Inflados pela revolta popular que a fome traz aos sofridos, formamos uma linha e começamos a cantar em uníssono:

– Ô CALVO, VIADO, CADÊ NOSSO CHURRASCO, Ô CALVO, VIADO, CADÊ NOSSO CHURRASCO!?

Vocês devem esperar que essa história se conclua com crianças presas pelo Doi-Codi ou que ao menos levaram umas borrachadas para ficarem espertos. Mas os tempos eram outros, mais inocentes. Fomos solenemente ignorados pela campanha do vereador, que certamente saboreava uma incrível picanha enquanto, do lado de fora, crianças trabalhadoras passavam fome. Desistimos depois de meia hora para fazer coisas mais importantes como empinar pipa, tocar campainhas e sair correndo ou descer a Rua Carandaí em cima de compensados de madeira.

Isadora, a nova princesa da paz

Vivemos na era das cores, certo? Na qual não temos mais o preto e o branco, o bem e o mal e de mais Batmans versus Coringas. Hoje tudo é relativo, até mesmo a relatividade. Mas por mais que tentemos ser uma sociedade que aceite tanto em RGB quanto em CMYK, ainda temos o clássico dois pesos e duas medidas.

Exemplo recente disso está na nova mártir das redes sociais, Isadora, 13 anos de idade e uma página revolucionária no Facebook que retrata as mazelas do ensino público no país. Isadora é a Ariana Huffington mirim, a Olguinha Benarinho. Com o poder da comunicação ela transforma a vida dos pobres alunos tiranizados por diretores despreparados e professores desmotivados. É exemplo para o país e o mundo de como uma criança pode vir a se tornar um exemplo de cidadão, quem sabe não estamos de frente a futura presidenta do país, quem sabe Isadora não é o MESSIAS QUE VEIO PARA NOS TIRAR DA ESCRAVIDÃO E NOS LEVAR A TERRA PROMETIDA.

Gosto de pensar na contraparte da Isadora. Lembram da Menina Pastora. Aquela lá do PRÍNCIPE DA PAAAAAAAAAZ e tal? Pois bem, me digam aí a principal diferença entre as duas? A bandeira que elas levantam, certo? Errado. Não há qualquer diferença entre as duas. Ambas se tornaram exemplo para seus pares na comunidade. São reconhecidas pelos seus como prodígios prontos para salvar um mundo povoado por crianças acéfalas que, ao invés de lerem as sagradas escrituras ou O contrato social, resolvem ir empinar pipa, jogar bola, videogame, ver filmes idiotas ou qualquer outra coisa que crianças aos treze anos devem fazer.

Porque aos treze anos nós devemos nos divertir. Aos treze não temos que ter a preocupação de um mundo louco no qual diretores se lixam para seus alunos, professores ensinam qualquer coisa para ir para casa mais cedo e pastores resolvem colocar na cabeça de uma criança que o mundo só será salvo para os justos. Isso fica para nossos pais, nossos tios, nossos avós. Estamos criando toda uma cultura de paranoia cada vez mais precoce, com crianças ,cada vez mais preocupadas em como mudar o mundo. Pelo amor, estamos aqui há dois mil anos com poucas crianças que quiseram mudar o mundo e tudo seguiu muito bem. Tirando Mozart – que por sinal teve de se divertir tardiamente – não temos dez mil exemplos de gênios que foram moldados desde a infância. Einstein era disléxico, Pelé foi recusado em peneiras. Não forcemos a barra com a criançada. Se nossa sociedade está cada vez mais paranoica hoje em dia, imagina quando começarmos desde meninos a torcermos o pepino?

 

PS: além do mais, a criação desse mito infantil nada mais é que a culpa por não termos feito nada de brilhante na nossa infância. Eu agradeço por ter lido meu primeiro livro aos 18. Se o tivesse feito aos 13 anos, com certeza acharia a literatura uma obrigação e não um prazer.

Cinco candidatos possíveis para SP

O mano firmeza:

Salve, salve Jão é tudo nosso na quebrada. Aí, o bagulho tá foda, tá osso mesmo, mas fé em deus que ele é justo já disse nosso Mano, Brown. Tô aí firmezão, pronto pra correria do Banespa, vou versado na bagaça, já fiz corre nuns banco e pá, mas aí em outubro velho é só liga nóis firmezão lá na caixinha, aqui não tem sete um não jão, aqui é dezessete, o número do homi firmeza nas cabeça é tudo nosso salve Jardim Peri.

O taxista:

Estou aqui para trazer de volta a bandeira do Jânio e varrer a corrupção da cidade. Embarque nesse táxi que aqui é bandeira um e o melhor caminho. Vamos cortar o trânsito e os gastos, recapear as ruas e se der tempo ainda dar um cochilo antes da corrida até Cumbica. Meu nome é Antonio Alves e eu sou taxista.

O paulistano estereotipado da Mooca:

Ê belo, tá chegano a hora meuô, em outubro é só votar ni nóis que ta tudo certo meuô, aí ó, vamos mudar Sampa de um jeito que Sampa nunca foi mudada primo, maior daora vai ficar a cidade meuô, vai ter tudo maior legal na cidade meuô, vamos junto caminhar por uma Sampa mais feliz meuô, vote ni mim, meu nome é José Serra da Losteria do Travagliato.

O locutor do carro de pamonha:

VOTA AÍ VOTA AÍ FREGUESIA É O CANDIDATO PAMONHA, PAMONHA FAZ RECEITA, NA CÂMARA TEM CLIMA, É O PURO CANDIDATO DO PARTIDO VERDE, VENHA VOTAR MINHA SENHORA, APERTE DOZE E CONFIRMA, TEMOS PROPOSTA É O PAMONHA. PAMONHA. PAMONHA. PAMONHA.

O hipster da Augusta:

Chegou a hora de pensar e frente, chega desses caras velhos, chega de jornais e revistas, nossa revolução não será televisionada a menos que você esteja vendo o Youtube pela sua TV de plasma. A hora de mudar é agora e nossas propostas são novas como aquela banda de Helsinque que só eu conheço. Agora é a nossa vez, a força do poder jovem nas mãos da Rua Augusta. De decadente a presidente, vote Augusta, vote consciente.

Diário de um diploma de jornalismo

Você me ganhou, cara. Depois de quatro anos, você finalmente me ganhou. Depois dos cochilos nas aulas de filosofia, dos bares idos durante as aulas de semiótica, você finalmente me ganhou. Mas valeu a pena? Pensa bem, era isso mesmo que você queria? Eu sei que você se divertiu na faculdade, fez grandes amigos, alguns inimigos e um desses pode ser seu chefe no futuro. Bebeu todas as coisas possíveis, comeu mal, comeu bem e não comeu. Estudou, enrolou, acendeu e fumou. Mas de verdade, valeu a pena?

É aquilo, alguns dizem que sou só um pedaço de papel, que a nossa profissão não precisa de formação específica, como se jornalismo fosse uma pinta, uma mancha na coxa da Angélica: ou a gente já nasce com a bagaça ou então vai vender Barsa. Visto dessa forma, você me ganhou e eu tenho tanta importância quanto uma conta de luz paga há três anos. Mas pensa bem, cara: foram quatro anos da sua vida. Tem gente que não vive quatro anos. Tem time que não ganha títulos há quatro anos. É tempo pacaraleo amigão. Nem mulher você cobiça durante quatro anos, em uma luta incessante contra o frio, a fome, o sono, o saco cheio. Tem lá suas recompensas, quando rola um trabalho bem feito ou aquela prova que você imagina um zero e veio um seis e meio firmezaço. Mas tem as notas vermelhas, as frustrações, os trabalhos em grupo. Toda uma gama de imbecilidade que só quatro anos de faculdade pode nos oferecer.

Daí fica a pergunta: eu sou importante? Sua mãe me adora, seu pai até chora quando me vê. E eu sou entregue em festa né amigo, com você de beca e tal. Tenho meu ar solene, apesar de estar meio datado. Tipo a Rainha da Inglaterra. Daí você chega em casa, bêbado, me dá uma mirada e diz que amanhã vai me colocar em um quadro. O amanhã vira depois, que vira ano que vem que vai virar próxima vida. Quatro anos de luta para me colocar numa gaveta, do lado de inúteis como a Certidão de Nascimento e o Título de Eleitor, que ao menos de quatro em quatro anos vê a luz do sol e sente o couro da carteira. É amigo, eu valho a pena, mas sua alma é que é pequena.