Manual de guerrilha urbana para policiais

A situação na cidade beira o caos. Milhares de baderneiros, armados com flores, cartazes, pedras, paus, fins dos caminhos e vinagres fazem sangrar alguns corações financeiros de São Paulo. À polícia cabe combater esses arruaceiros, esses jacobinos, essa gente que fica chamando às pessoas para a rua com o que pode. Sendo assim, em um serviço de utilidade pública, darei algumas dicas de como se prevenir do ataque de jovens, de mulheres, de senhores, da sociedade onde já civil tanta treta assim?

LEVE UMA SALADA: todo mundo sabe que a boa alimentação é preceito básico para ser um policial. Afinal de contas pega mal para a corporação quando aparece um PM tão gordo que para prender alguém ele tem de tirar a algema do umbigo. Sendo assim, leve um pé de alface para os protestos. Com os delinquentes juvenis aprendendo a fazer bombas atômicas com vinagre, essa é a hora de unir o útil ao agradável no ambiente de trabalho. Se possível, acompanhe um tomate, uma cebola e se for mês de décimo-terceiro, leve até uma muçarela de búfala para dar uma incrementada nessa salada. Mas lembre-se, nada de comer coxinha junto com as folhas. É feio, não combina e engorda.

CARREGUE SEMPRE UMA PLAYBOY: isso mesmo, senhor policial. A revista está no fim e está mais barata. Veja, o senhor está lidando com alguns adolescentes cujos hormônios estão mais quentes que informação de boca de quebrada. Imagina que o senhor está lá, apenas fazendo seu trabalho, daí surge o jovem e tasca logo um abraço no seu escudo. Como é que pode, seu guarda? Não dê vacilos. Carregue uma Playboy com o senhor que em instantes o adolescente deixará de fazer essas coisas de arruaceiro para ir ao banheiro mais próximo descarregar suas energias.

ANDE COM CUPONS DE DESCONTOS EM LOJAS DE SAPATOS: o senhor oficial sabe muito bem que as madama não aguentam meia hora em loja de sapato. Sendo assim, não seja intimidado por repórteres que deveriam estar em suas casas passando aquela roupa ou lavando aquela louça. Saudades de quando o jornalismo era feito por homens feios, como o Samuel Wainer. Agora não, a redação tá cheia de mulher e elas não estão mais servindo café. O mundo está perdido! Mas divago, nobre policial. O lance é o seguinte: saca logo um cupom de desconto na frente da madama. Imagina que a mulher vai ficar ali em pé, gritando e suando, se tem um sapato alto em promoção na loja mais próxima. Outra solução é empurrar as moças que protestam para a Oscar Freire. Não há quem resista, senhor soldado.

COMBATA PÓLEN COM PÓLEN: isso mesmo, senhor PM. Não dê vacilos na hora que um furibundo manifestante vier na sua direção com rosas. Equipado com roupas de apicultor, sente o sarrafo de abelhas nesses abelhudos sem dó nem piedade. Veja o mel da ordem escorrer pelas mãos desses vagabundos que deveriam estar na escola ou no trabalho. Que esses vagabundos sigam o exemplo das trabalhadoras abelhas.

CONTRA-INFORMAÇÃO É A ARMA DA INFORMAÇÃO: todos nós sabemos que numa guerra, a informação ganha batalhas. Por isso, busque desinformar o inimigo. É comum que transeuntes cheguem as policiais nas ruas. Informe o caminho errado. O cara quer ir no Anhangabaú? Ótimo, mande ele para o Bom Retiro! O caminho mais rápido para a Freguesia? Jogue o infeliz no Marsilac! Ah, como faz para chegar na Vila Nova Iorque? É fácil, mande ele ir para Cumbica, pegar um avião e descer no La Guardia.

CHAME AS PESSOAS PARA SUAS CASAS: o discurso contrário é ótimo para atuar na contrariedade do discurso. Se os manifestantes começarem a chamar os populares para as ruas, incitem para que elas fiquem em suas casas. Anunciem a programação da TV em caixas de som, obviamente mentindo quanto à programação. Digam que vai reprisar Avenida Brasil, que o Palmeiras e o Corinthians estão se enfrentando e o jogo está 9 x 8 com menos de 20 minutos, que o João Kleber está fazendo teste de fidelidade com a Clarice Falcão e a Nanda Costa nuas. AJAM!

USEM MEMES: a internet é hoje um poder importante na vidas do jovem. Sendo assim, se adeque as novas mídias. Se o manifestante gritar SEM VIOLÊNCIA, responda com um SÓ QUE NÃO e atire uma bala de borracha em local estratégico. Se todos ficarem parados, avancem aos gritos de CORRÃO. A juventude é antenada, seja você também um PM antenado.

SAIA ÀS RUAS COM ROUPAS DO CIBERCOPS: jovem que é jovem tem saudade da infância. Saia as ruas vestido de Cibercops ou Jiban, policiais corretos no imaginário infantil. Nenhum manifestante será capaz de jogar flores em um herói.

Colorados de todo o mundo, uni-vos

Daí que os caras do Impedimento fizeram um concurso literário para ganhar a camisa do Internacional ou do Grêmio. Pretenso colecionador que sou, escolhi a do Inter para participar. O lance era simples: bastava uma história fictícia sobre a camisa do clube que você escolhesse. O texto não passou pelo crivo da comissão julgadora, mas beleza, não se ganha tudo nessa vida. eis o texto, para tristeza de muitos.

Na beira do campo, o Karl coçava a barba com fervor. Não conseguia olhar os passes errados do Stalin, praguejava contra a mãe do matador Pol Pot e até o camisa 10 unânime, Lênin, era contestado.

- Mas que jogo de merda, Engels.

Friedrich, o Murtosa de outras eras, só olhava e cofiava o bigode.

O juiz apitou o fim do primeiro tempo. Jogando de azul, o time do Capital vencia o Comunismo por dois a zero. A mais-valia em campo estava mais inválida que o presidente Roosevelt. O Comunismo, de branco, foi para o intervalo.

- Mas que caralhas de apropriação é essa, camaradas?

- Pô professor, a zaga dos caras só tem beque barão de fazenda!

- Até tu, Lênin? Sério mesmo? Seguinte, vamos encarnar essa merda toda!

Havia dias que Marx pensava que algo estava fora de lugar. Não sabia se era o nome, se era a cor da camisa ou se era o Gorbatchev de volante. Alguma coisa ali parecia ruir a qualquer momento. Resolveu que aquela era a hora e, com tinta vermelha nas mãos, começou a manchar camisa por camisa.

- Que isso, fera?

- É o vermelho, Honecker. É a nossa cor, nosso manto. A partir de hoje jogamos de vermelho! E tem mais, acabou a bobagem de Comunismo Futebol e Cerveja. Agora somos o Internacional.

- Não é A Internacional, professor?

- Não, é O Internacional. Tem uma treta com naming rights.

O Internacional, ex-Comunismo Futebol e Cerveja e que nascera Socialismo de Futebol Científico Porto-Alegrense, voltou para o segundo tempo. A beira do Rio Guaíba, donos de fábricas e a alta burguesia esperavam com o límpido uniforme azul para sacramentar o resultado para o Capital. A bola começa a rolar e logo de cara Mao Tsé, o Zizao de outra época, manda na gaveta.

- Falei Engels, falei! Sou foda, cara!

Engels sorri, mas o bigode impede que vejamos.

O que era fausto ficou apertado. A conta não fechava para o Capital, que começou a ser pressionado pelo Internacional. A camisa vermelha parecia multiplicar-se em relação à branca. Gritos de VERMELHOU NO CURRAL A IDEOLOGIA DO FOLCLORE VERMELHOU e acordes de BRASÍLIA AMARELA escapavam da torcida em direção ao campo, impulsionando os jogadores agora encarnados. Aos 47 minutos o que parecia impossível aconteceu: penâlti para o time rubro. Yeltsin pôs a bola debaixo do braço e vaticinou:

- É tudo nosso, rapeize!

Compenetrado, correu para a bola como quem corre para salvar o mundo. O chute subiu tanto que acertou um muro em construção na avenida Goethe, derrubando tudo e agradando os populares.

Apesar da derrota, o Internacional saiu de campo orgulhoso de seu feito. Ali morria o Comunismo, Socialismo ou o que quer que tenha sido antes. Mas nascia o Internacional, cuja camisa rubra conquistaria feitos que aqueles jogadores jamais conseguiram em suas vidas. O maior deles, a conquista mundo, calhou de ser de uniforme branco. Mas todos sabem, no fundo, que se Gabiru estivesse de vermelho, lembraria Lênin nos seus melhores dias.

Devagar com o andor…

Deixando de lado toda a discussão de que uma piada, quando precisa ser explicada até por um psicólogo, não é lá das melhores, o quadro divulgado no Pânico de ontem que mostrou toda desenvoltura de Gerald Thomas para o humor e de Nicole Bahls para o jornalismo levantou uma pergunta importante.

Não estamos indo rápido demais? As coisas mal acontecem e já temos opiniões, protestos, gregos contra troianos contra persas contra fariseus contra nazistas contra o que quer que seja. Não é hora de irmos devagar com o andor, porque derrubar santo dá um azar do caralho? A divulgação das fotos começou na segunda (terça? Quarta? Quinta? Sexta?). Nelas víamos Nicole sendo atacada por um Gerald Thomas com olhar de lascívia, o que já é uma ofensa aqueles que possuem olhos, porém atacada. Nicole parecia visivelmente constrangida, claro. Talvez por ser Gerald e menos pelo ato, mas isso poucos poderão saber e estou aqui imaginando coisas.

E começamos com as acusações, com as defesas, com os ataques e com tudo mais que é inerente nas discussões desde que as redes sociais são redes sociais. Mas a pergunta que não ficou no ar e foi feita por Emilio Surita momentos antes da exibição do quadro: quem na realidade tinha visto o que eles chamam de matéria?

Ninguém tinha visto. Ninguém do Ego, ninguém do UOL, ninguém do Twitter, do Facebook e até do Orkut. Eu, você, as feministas e até o Papa Francisco não vimos e já derramávamos um monte de letras em tudo quanto é lugar de tudo quanto é forma. Estamos perdendo a cada nova polêmica a capacidade de análise, para sermos os primeiros, para sermos os mais combatentes ou ao menos para fazermos a primeira piada.

O que o Pânico mostrou foi uma grande farsa. Bolada pelos produtores, pelo Zuckerman, pelo Ceará, pela Nicole e que contou com a participação especial de Gerald Thomas. O que não elimina ele de ser babaca, claro. E que continua suscitando as discussões sobre o limite do humor e todas essas bobagens, sem dúvida. Mas o que nos leva a uma questão primordial: não é melhor esperarmos um pouco antes de darmos nossa opinião?

Porque se vamos lutar pelos direitos das mulheres, vejo Nicole Bahls realizando seu direito de ganhar dinheiro e aparecer na TV como bem entende. Ainda que seja sujeita a um ataque sexista do esquecido Gerald Thomas. É bom para a Nicole, que ganhou pontos no Ibope e vai continuar como repórter. É bom para Gerald, que divulgou seu livro e reapareceu das cinzas que nunca deveria ter saído. E para nós, o que é bom?

O PECado da empregada

Valdirene chegou na cidade com várias pessoas. Procurou um quarto aqui, um acolá e achou a casa da Dona Vânia como lar. Solícita e com uma mania de limpeza que quase chegava a um diagnóstico médico, ganhou o coração da patroa em minutos. E do Alfredo em segundos, porque tinha uma bunda que não era desse mundo.

Alfredo parava com o videogame na mesma hora. Era só a Valdirene aparecer de flanela e lustra-móveis para o moleque caçar um livro, uma revista, um tratado sobre as armas químicas no Iraque ou qualquer outra coisa que emulasse uma distração. Valdirene se contorcia para limpar atrás da TV e o moleque se contorcia para ver uma marca de calcinha, uma polpa de bunda ou qualquer coisa que o valha. Na escola, o papo não poderia ser outro.

- Cara, eu dava casa, comida e roupa lavada.
- Mas ela quem teria de fazer isso, né?
- Então eu dava FGTS, férias e décimo terceiro.
- Décimo terceiro sem tirar.
- Hahahahahahahahahahahahahaha, babaca…

Alfredo as vezes tentava, daquele jeito que moleque acha que tenta. Dava uma olhada mais fixa na Valdirene, daquelas de cantada de boteco na Vila Madalena. A doméstica sabia que o patrão estava de bituca, mas nunca que largaria o sambão pelo pirralho. Alfredo só fazia suspirar e falar baixo para si. “Ah, um dia…”.

Os anos passaram e o Alfredo virou deputado. A Valdirene tinha já saído da casa, sendo substituída pela Dona Mercedes, aquela que sem sombra de dúvidas lavou as escadas do Senado Romano depois que empacotaram César. Dona Vânia, afinal de contas, tinha um par de olhos. Destaque em Brasília, Alfredo resolveu propor melhores condições para as domésticas. Nas rádios, TVs, jornais e até nas mesas de boteco, dizia que o lance era profissionalizar, afinal de contas serviço é serviço em qualquer lugar. Mas estava na cara que era pela Valdirene. Levou o projeto para ser votado e quando, por unanimidade, conseguiu passar a PEC das Empregadas, subiu ao plenário para discursar sobre a vitória do trabalhador.

Com o bolo de papéis a frente, lembrou da polpa da bunda da Valdirene. Deu um sorriso e na hora achou por bem bater os papéis na mesa para dar uma disfarçada, como fazia há anos. Falou que era uma lei do povo, um marco na sociedade e outras papagaiadas.

Mais tarde, do outro lado da TV, Valdirene viu o Alfredinho discursando. Lembrou na hora do moleque safado que vivia a comer com os olhos suas polpas e frutas. Pensou que poderia ter sido a primeira do pirralho que hoje mudava a história do trabalho doméstico no Brasil. De maneira sincera, encarou a TV e falou bem perto do ouvido do Alfredo:

- Hoje eu dava pra você. Com casa, comida, roupa lava, FGTS, férias, décimo terceiro…

Até para fazer boa ação eu sou ruim

Daí que ontem toquei pro Mundo Verde, como diz o índio do comercial, afinal de contas a linhaça de cada dia precisa estar lá no suco de couve. Não perguntem, mas esse negócio de 105 quilos é sério e tal.

Pois bem, na porta do Mundo Verde estava um mendigo. Cada um que passava era parado pelo mesmo motivo de sempre: dinheiro para a fome, para a cachaça, para o que quer lá que seja. Lícito ou ilícito, inclusive. Estava sem nada no bolso, só com o dinheiro de plástico e como o mendigo não era Feliciano e eu não era trouxa, não dei cartão e senha.

Pedi aquela desculpa marota e dentro da loja caía em mim o peso do mundo em remorso. Porra né Julio, o que custa, o cara está com uma fome daquelas de comer rabada achando que o mundo é uma maravilha. Colabora lá, velho, faz essa boa ação e quem sabe daqui alguns anos a Lei do Retorno te dê uma Mega-Sena pelo conjunto da obra.

No mesmo instante me bateu que, vejam só, estava numa loja de produtos naturais. Imagina que você é um mendigo, que sua fome por arroz, feijão, carne, batata, proteínas e carboidratos aos montes, a ponto de serem jogados para o ar numa cornucópia fodida de sabores e foda-se ao peso sem fim, um vórtex das coisas mais belas do mundo empilhadas num prato como se fossem um Everest e você escalando a parada com uma colher – garfo e faca uma porra – o homem vencendo a natureza e voltando a sua natureza mais primitiva ou um desses papinhos filosófico-chatos que caiba por aqui. Sério mesmo que você vai dar uma barrinha de cereal para o cara que está a ponto de parar na porta de um mercado natural para pedir? Se houver um Hitler, um Stalin, um John Lennon do século 21, você será pior que esse cara, teu nome e dos teus descentes será dito nas piores rodas como a Academia Brasileira das Letras e essas merdas todas.

Depois de muito pensar, saí do Mundo Verde com um pacote de linhaça e três biscoitos integrais de chocolate. Ninguém falou um “a”, mas eu ouvi a meio palmo xingando por telepatia:

- FILHO DA PUTA!

Eu não sou cicloativista

Segundo o Endomondo, pedalei 1.521 km em menos de um ano. Se mantiver essa média, em dez anos terei dado a volta na Terra. Tudo isso na cidade de São Paulo, indo da Paulista para o Tucuruvi, de Pirituba para Pinheiros. Usando calçada, pista da direita, corredor da pista da direita, ciclovias, ciclofaixas. E nesse quase um ano tendo a bicicleta como principal meio de transporte, acompanhei no mínimo três mortes e alguns acidentes graves divulgados pela mídia na Avenida Paulista.

É foda andar de bicicleta em SP. Todo mundo têm pressa, ciclistas e motoristas. Não sei dizer qual pressa é resultado de outra, mas ela está lá. Na Rebouças, por exemplo, me sinto obrigado a ir pela calçada por receio dessa pressa paulistana. É uma subida, e a minha velocidade deve ser de 10 km/h. Imagina aquele senhor no seu BMW tendo que aguentar o gordinho aqui pedalando. Baixa um Exu Vin Diesel no homem vindo das mais profundas trevas das videolocadoras e sites de torrent. E ele dá aquela acelerada, buzinada, roncada de motor alemão que dura toda uma eternidade.

Na Paulista, exceto aos domingos quando tem ciclofaixa, a direita é a melhor pedida. Dos ciclistas e dos ônibus. Alguns são legais, te dão espaço para passar e ficam atento às suas buzinadas. Outros encarnam o Piquet e são paus-nos-cus com ou sem o volante. Nela, eu costumo passar os faróis vermelhos para pedestres, porque temos ônibus, táxis e carros com pressa.

Na Faria Lima tem ciclovia. E tem aqueles que, quando vão fazer a conversão para a outra pista, insistem que é uma boa ideia parar em cima da faixa destinada às bicicletas e ali ficar, preso num trânsito dantesco, tendo os ciclistas como companheiros.

Em Pirituba tem a Raimundo Pereira de Magalhães. A prefeitura colocou uma faixa na curva: ATENÇÃO – CICLISTAS NA PISTA. O vento, as chuvas e mais outras mazelas derrubaram a faixa. Hoje não é necessário ter atenção.

Na Sumaré tem ciclovia. Quando a avenida está vazia, desço pela faixa das motos. Sou babaca de fazer isso? Claro que sim.

O lance é que é foda viver em comunidade. Vem aquilo do seu direito terminar onde começa o do outro. Ou algo assim, nunca acerto esse clichê. Se transportar numa cidade como São Paulo sempre será difícil. E alguns podem dizer “mas em NY não é assim”. Exato, mas essa Nova Iorque dos sonhos é uma ilha, e aqui as ilhas são os homens, já que estamos falando de clichês. Sempre haverá acidentes, tanto para gregos quanto para troianos.

Mas a partir do momento alguém atropela um ciclista e foge pelo menos 10 km com o braço dessa pessoa presa ao carro, passamos de todo esse blábláblá de cicloativismo, quem está certo e quem está errado e estamos longe de um mero acidente. Porque não bastasse o sangue frio de atropelar alguém e deixar a cena em fuga, a pessoa ainda consegue ter a coragem de retirar um braço de seu caro e jogá-lo em um córrego da Ricardo Jafet. O fato do ciclista atropelado depender do braço para trabalhar aumenta mais a história, mas pouco importa. E também importa menos ainda se o cara era trabalhador, talibiker, oficial nazista foragido. É para pensarmos como caralhos alguém anda dez quilômetros com um braço de uma pessoa preso ao carro e, quando o vê, acha por bem jogá-lo em um córrego?

Esse cara não só privou um trabalhador de exercer seu ofício, um pai de sustentar uma família. Ele traz a tona os instintos mais primitivos, como diria Roberto Jefferson, para a discussão de mobilidade na cidade. Num momento em que a cidade adota a bicicleta como alternativa para o trânsito macabro de sexta-feira passada, essa estupidez, essa ignorância ocorrida na madrugada de domingo acirra uma rivalidade que nem deveria existir. Pululam frases como LUGAR DE BICICLETA NÃO É NA PAULISTA e CARRO BOM É NA GARAGEM quando a única coisa que deveríamos pensar é: em que momento erramos para que pareça uma boa ideia atropelar alguém, fugir com seu braço por quilômetros e despejá-lo num córrego da cidade?

Lá vem o Chavez

- Olha quem tá aí!
- E ae rapeize?
- Hugo! Achei que você já tava aqui faz tempo!
- Estava, mas me perdi. Essa porra é grande pacaraleo!
- Ô Leon, ó quem chegou!
- Dae Hugo, joinha na Cortina?
- Embaçado em Stalingrado, Trótsky. O bicho tá pegando lá em cima.
- Tô sabendo, o Vlado vê essas paradas no Reader. Ô Zéf, traz umas cervejas aí que o Hugo chegou!
- Tem Heineken, por causa da estrela vermelha, risos.
- Então pessoal, vou ficar só uma carinha aqui. O homem me chamou.
- Hahahahahahahahaha, já chegou chegando.
- Não, é sério.
- Por que caralhos?
- Sabe aquele lance do diabo lá na ONU? Então, me benzi e pãns, daí deus achou que eu sou da vibe dele.
- Mas você é?
- Claro que não né, aqui é comunismo tru, não pokemon!
- Pô o quê?
- Desencana. Mas enfim, vou ver qual é lá no pico. Se vir o Fidel, manda abraço.
- Ele também se perdeu no meio do caminho?
- Não, ele está discursando desde que chegou. Mas daqui a pouco ele pinta.

E entoando aves marias, Chavez foi ter com deus para explicar que história é essa de comunista bolivariano que anda se benzendo e dizendo “graças a deus”.

Adolf Hitler

Sabe lá por que cagada o pai do Adolf Hitler resolver dar a ele esse nome. Adolf Hitler da Silva. Ser Hitler era foda. Na infância era foda. As crianças da escola não ligavam o nome aos milhares de mortos, então Adolf ficou conhecido como o Peido. Aquele que com som sai tal e qual o nome do líder nazista, um leve suspiro do cu junto normalmente acompanhado de fritas, feijoadas e outras comidas de sabor incrível e cheiro não tão nobre. Adolffffffffffffffffffffffffff, dizia a molecada. Hitler dava de ombros.

A primeira namorada foi a Ester. O amor tem dessas. Ester nadava no Maccabi e o pai tinha “um lojinha”, como dizem seus pares do ramo religioso. Seu Saul enfureceu quando Hitler se anunciou em casa. Pensou no avô lá na Polônia, teve a mesma sensação. Lá estava Hitler, levando sua joinha. Enfureceu, gritou, proibiu, acendeu menorás e o que mais pudesse acender naquela casa. Mas Ester resistia como se estivesse em Stalingrado. O mundo é sempre cíclico.

A coisa com a Ester desandou, para alegria de Saul e dos amigos da família. Aquilo era um mau agouro do caralho, um desrespeito aos que se foram naquela guerra e em tantas outras. Chegou a faculdade e com ela os amigos babacas que riam porque Adolf Hitler militava com a turma da esquerda. Diziam que o nacional socialismo finalmente haveria de ser socialista. Hitler ficava na dele, como sempre fazem aqueles que carregam qualquer fardo. Pensava em mudar de nome, mas daí vem aquele momento de epifania que costuma foder a minha, a sua, a nossa vida. “E se eu fosse um Hitler do bem”, pensou. Ideia mais babaca não haveria de nascer nos próximos cem anos.

E lá foi Hitler concluir o curso de Ciências Sociais e militar pelos pobres na Somália, nas Filipinas, em Muzambinho e outros fins de mundo. Onde houvesse um pobre sofrendo, lá estava Adolf Hitler da Silva pronto para gritar que o povo não era bobo, abaixo a Rede Globo. Viajava de avião, de carro, de camelo, a pé. Onde houvesse injustiça social, lá estava o super Hitler pronto para combater o mal, com o perdão da rima pobre.

Os anos passaram e Adolf Hitler da Silva foi parar na ONU. O primeiro-ministro de Israel chiou, o da França riu. Pregando a paz, o fim do armamento nuclear e outras utopias, falando 17 dialetos e outras tantas línguas. A imprensa delirava, as organizações não governamentais ficavam confusas e a vida seguia. Sentia que as coisas mudavam. Que aquele nome, outrora sinal de intolerância, de maldade, de filha da putice sem fim, entraria para história agora como um anjo dos pobres, um santo dos desvalidos, a Madre Teresa que deixou o nazismo.

Até que Hitler morreu. Deixou esposa e dois filhos, João e Beatriz, porque essas coisas não são hereditárias. Os funcionários da ONU se juntaram no velório para lembrar o senhor amável que dava bom dia a todos. O premiê de Israel pediu que o nome não fosse mais citado na casa. O da França, riu. E alguns jornais, no dia seguinte, recordaram a história: “Morre Adolf Hitler. De novo.”.

Django

O Doutor Schultz (que talvez tenha parentesco com a finada Paula Schultz) é algo novo na filmografia do Tarantino. Porque se compararmos com o Coronel Hans Landa se Bastardos inglórios, ele é um bom homem, correto? Não.

Doutor Schultz é tão sangue frio quanto Landa quando o lance é sentar o dedo na galera. Claro que matar judeus difere e muito de caçar criminosos em uma época na qual a lei era na base da pólvora. Mas morte é morte e quem relativiza o tema é o Stálin. Mas, porém, contudo, adiante, todavia e Emerson Sheik, herr doctor é de uma humanidade incrível para a época e o local que ele está, enquanto Hans Landa é de uma crueldade estrondosa em outro espaço/tempo.

Se tem um filme do Tarantino que pode ser comparado com Django, esse é Bastardos inglórios. Temos a questão racial em pauta, os escravos americanos foram os judeus da segunda guerra. Porque sim, o mundo é racista, mas os EUA tem seus rincões onde ainda pode ser assombroso um negro andando a cavalo. E nessa comparação, Tarantino fez coisas incríveis.

Para essa comparação, tomemos o exemplo do Doutor Schultz. Ele é europeu, culto, sabido e um atirador da porra. Tudo aquilo que os senhores de escravos americanos gostariam de ser, mas abominam. Tarantino foi incrível ao colocar um alemão como defensor dos escravos, deixando claro que Schultz é contrário à barbárie. Ele mata não por prazer, mas pelo dinheiro, até o momento em que vê Calvin Candie soltar os cachorros em cima de um escravo. Literalmente. A partir daí o sempre sensato Doutor Schultz se humaniza e perde a calma peculiar de toda e qualquer situação de perigo.

Hans Landa é o contrário. Insano desde o princípio, tenta mais a frente um acordo para viver tranquilo na América. É sensato abandonar o Titanic de insanidade que foi o nazismo. Ambos momentos de sensatez são frustrados porque o Tarantino quer que o caos reine e foda-se a polícia, como dizem os gringos.

Mas quem melhor define o filme é o personagem de Samuel L. Jackson. Ele é o exemplo de que nosso negócio é ser desumano. Se pudesse, Stephen cavalgaria de capuz branco da Klu Klux Klan [motivo de uma piada incrível e que já vale o filme]. Se lhe fosse permitido, sairia a açoitar negros nos alvos campos de algodão do Mississipi.

E Stephen não demonstra em nenhum momento que gostaria de ser branco. Demonstra gostar de ser o que é, uma pessoa servil e – com o perdão do trocadilho – um ser vil. Ele não odeia negros pelos mesmos motivos estúpidos dos brancos, de hegemonia racial e outras babaquices. Ele odeia os negros por odiar. Seu racismo é diferente da ilusão absurda de que os cérebros dos negros são inferiores ao de Isaac Newton, por exemplo.

Esse novo Tarantino, que deixou de lado as tramas mais obscuras como o cinema dos anos 70, os gibis cheios de violência e os filmes chineses para recontar histórias mais universais, é tão incrível quanto aquele que fez de Kill Bill um dos melhores filmes do cinema. Usa, claro, de seus maneirismos de estilo e de suas referências já não tão obscuras afinal, sempre tem alguém que vai atrás da bibliografia. Mas ainda assim, sempre aparece com algo novo, ou reinventa um clássico. Desta vez, é o racista que odeia sua própria raça.

Não sei vocês, mas aguardo um filme notável do Tarantino sobre as Cruzadas.

Flw vlw Playstation 2

A Sony resolveu não mais fabricar o Playstation 2. Só vai vender o que está nas fábricas e depois disso ele será uma daquelas peças de museu, como a máquina de escrever, o mimeógrafo, o Super Nintendo e tantos outros heróis de outras épocas.

Vá lá você dizer que sou saudosista e com razão. Meia hora de Santa Efigênia já me dá ideias como comprar um Mega Drive, pensamentos esses que somem quando penso onde vou ligar esse cara. Nas TVs de hoje, superledamoledducaled? Preciso comprar também a Sharp tubão, para voltar a 1992, quando o grunge dominava o mundo e Sonic, Toki e Kid Chameleon eram muito melhores que o Screaming Threes. É um gasto de grana e, principalmente, de espaço, que não rola nos dias de hoje. Preciso criar o Recanto do Guerreiro aqui em casa.

Voltando ao PS2, que ideia brilhante. Lembro que quando vi o Playstation 1, babei até molhar o Saara. Era incrivel, era mágico, era poligonal. Vivi grandes histórias com Metal Gear Solid, Final Fantasy VII, Simphony of the dark e Winning Eleven até ver aquela caixa preta na casa de um amigo. Quando ele ligou a Caaba dos videogames, puta merda. Avancei sei lá, 218 anos em tecnologia. Aquilo era incrível. O Winning Eleven era como um jogo de futebol verdade. O Metal Gear Solid 2 era como a espionagem de verdade. E surgiu sorrateiro God of War, sem dúvida meu top três da vida. Foram diversos CDs, alguns memory cards e outros tantos controles de vitórias incríveis, derrotas injustas e filhos da puta a esmo em frente a TV. O mundo avança, a Microsoft melhora as coisas e a Sony bate de frente com o PS3, o videogame que tenho hoje e o qual venero como se fizesse chover maná dos céus. Mas sempre que remasterizam um jogo incrível da caixa preta eu estou lá, recordando do console mais vendido que esse mundo verá. Vaticino sem dó pois os videogames serão cada vez mais incríveis. Mas o Playstation 2 é Bastilha, é Fórum Romano, é Kratos rasgando as entranhas dos deuses.

Te vejo na Santa Efigênia, caixa preta.

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